Alta Floresta

31 de outubro de 2026

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Ronaldo Adriano: arte e memória na história cultural de Alta Floresta

Com trajetória iniciada em 1991 no Teatro Experimental, artista relembra marcos da cultura local, os desafios do audiovisual e a importância de preservar a identidade do município.

Ronaldo Adriano: arte e memória na história cultural de Alta Floresta
Lindomar Leal

A história cultural de Alta Floresta é marcada por festivais de música, espetáculos teatrais e produções audiovisuais que registram a formação do município e a identidade de sua população. Entre os artistas que contribuíram para essa trajetória está Ronaldo Adriano, ator, roteirista e diretor que iniciou sua caminhada no teatro em 1991, no Teatro Experimental de Alta Floresta.

            Embora já tivesse participado de experiências teatrais na igreja de outra cidade, foi no Teatro Experimental que compreendeu a arte como forma de expressão humana. O reconhecimento de sua identidade artística veio em 1997, durante o espetáculo A História do Juiz.

“Foi a partir dali que pensei: ‘Gosto disso e quero seguir nesse caminho’”, recorda.

Desde então, Ronaldo participou de produções que retrataram a realidade local e se dedicou ao audiovisual, utilizando a criação artística para preservar acontecimentos, personagens e transformações sociais.

Ao destacar os principais acontecimentos culturais de Alta Floresta, Ronaldo lembra o surgimento do Festival da Canção de Alta Floresta (FESCAF), em 1981. A iniciativa foi de Paulo Roberto Martins, conhecido como Paulinho, com a participação de José Luiz Teixeira, então secretário municipal de Educação, e de Donizete Aparecido Ramos. Paulinho e Donizete já faleceram.

Inspirado nos grandes festivais de música promovidos pela televisão brasileira nas décadas de 1960 e 1970, o FESCAF tornou-se uma referência da produção artística local.

Outro marco foi a criação do Teatro Experimental, apontado pelo artista como a primeira instituição artístico-cultural formalmente constituída no município. A entidade mantém sua atuação na produção de espetáculos e na promoção de reflexões por meio do teatro.

Entre as obras mais significativas está Fragmentos de Vida, cuja montagem começou em 1995, com estreia em março de 1996. Ronaldo integrou o elenco da peça, cuja dramaturgia foi desenvolvida por Agostinho Bisinoto, com a participação de outros integrantes, entre eles José Alessandro Rodrigues.

O espetáculo retratou a formação de Alta Floresta, abordando a chegada dos pioneiros não indígenas, o garimpo, as dificuldades de acesso à saúde e os problemas no fornecimento de energia elétrica, então gerada por motores a diesel, com apagões frequentes.

A produção permaneceu no repertório do Teatro Experimental durante dez anos. Em 2006, foi remontada com uma proposta que incluía apresentações em espaços abertos, como uma cena em que os atores atravessavam uma lagoa de barco.

Inspirada também na pesquisa acadêmica A Lenda do Ouro Verde, a peça motivou dissertações, debates e estudos científicos sobre a história local. Anos depois, a autora da pesquisa assistiu ao espetáculo e relatou ter ficado emocionada com o trabalho.

“ A peça representa a formação da região e a história de todos nós que vivemos aqui há muito tempo”, afirma Ronaldo.

No audiovisual, Ronaldo destaca o curta-metragem Vestígios do Tempo, no qual atuou como roteirista e diretor. A ficção, inspirada na história do garimpo e em sua relação com o desenvolvimento de Alta Floresta, contou com uma equipe de Cuiabá e foi realizada com estrutura profissional.

Para o artista, a produção cultural nasce da observação e das experiências vividas. Ao transformar a realidade em arte, o criador possibilita reflexões e registra aspectos de uma época.

Ele também ressalta a contribuição das artes visuais, lembrando de Paulinho, que retratava a cidade, seus lugares e personagens. Suas obras permitem observar o passado e compreender aspectos da formação local.

Outro marco citado por Ronaldo Adriano é o tombamento do avião Douglas DC-3, que identifica como o primeiro patrimônio histórico-cultural do município.

A memória cultural, porém, também está presente nos costumes e na linguagem. A convivência entre migrantes de diferentes regiões, pioneiros da agricultura e trabalhadores do garimpo contribuiu para a formação de uma identidade própria, perceptível nas construções, nos hábitos e no sotaque da população.

“Essa mistura influencia o jeito das casas, a maneira como falamos e até o nosso sotaque”, explica.

Ronaldo considera Alta Floresta privilegiada por possuir manifestações artísticas desde antes de sua emancipação. A Avenida Ariosto da Riva, por exemplo, era um dos espaços de encontro da comunidade, com apresentações teatrais, eventos musicais e outras atividades.

Ao recordar esse período, Ronaldo Adriano menciona a pioneira Jeni Custódia Leal, falecida em março de 2021, vítima da Covid-19, que, segundo sua lembrança, foi a primeira mulher a tocar sanfona e desenvolver esse trabalho cultural na cidade.

Apesar dessa tradição, a falta de políticas públicas permanentes e de incentivos representa um obstáculo à continuidade dos projetos. O artista também aponta a ideia equivocada de que a produção cultural se concentra nos grandes centros, desconsiderando a contribuição dos municípios do interior.

A sustentabilidade profissional é outra dificuldade. Muitos artistas precisam exercer outras atividades para garantir renda, pois nem sempre conseguem viver exclusivamente da arte.

Na avaliação de Ronaldo, Alta Floresta amadureceu culturalmente e conta com profissionais qualificados, alguns reconhecidos fora do município e participantes de eventos internacionais. Entretanto, ele observa que o número de produções e de pessoas envolvidas no setor já foi maior em outros períodos.

“Precisamos equilibrar essa qualidade com o volume de produção e com o acesso da população às manifestações artísticas”, defende.

Para ele, é necessário ampliar as oportunidades de produção, incentivar novos artistas e aproximar o público dos espetáculos, da música, da literatura e do cinema. Também considera fundamental garantir continuidade às políticas culturais, evitando que as mudanças de gestão interrompam iniciativas.

Apesar das dificuldades, Ronaldo vê o futuro com otimismo e destaca a diversidade de linguagens artísticas presente em Alta Floresta, especialmente em comparação com outros municípios do norte de Mato Grosso.

Ronaldo Adriano atribui ao jornalismo um papel essencial na divulgação dos artistas e na preservação da história local. Entre os desafios, aponta a falta de espaços específicos dedicados à cobertura cultural, situação agravada pela estrutura reduzida das redações, cujos profissionais precisam atender a diferentes áreas.

Para ele, a imprensa pode contribuir com a divulgação de espetáculos, filmes, livros e exposições, mas também com o registro das trajetórias de artistas e das transformações culturais do município.

Ao recordar a importância dos festivais de música brasileiros durante a ditadura militar, menciona compositores como Milton Nascimento e Chico Buarque. No cenário local, destaca as letras de Paulinho, as composições de César Trindade, as participações de Gabriel Navarro e de seu irmão nos festivais e as peças de Agostinho Bisinoto.

Essas produções, segundo o artista, ajudam a constituir a identidade da população e merecem registros que permitam às próximas gerações conhecer sua importância.

            “O jornalismo também lida com esse campo da sensibilidade, com aquilo que não é tangível, mas que permanece e nos constitui como seres humanos e culturais”, afirma.

Em um município que completa 50 anos em 2026, a trajetória de Ronaldo Adriano evidencia a contribuição da arte para compreender a formação de Alta Floresta. Preservar essa história significa reconhecer os pioneiros, valorizar os artistas atuais e garantir que suas obras e experiências continuem acessíveis às futuras gerações.

Lindomar Leal - MTB 1569
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