A história cultural de Alta Floresta é marcada por
festivais de música, espetáculos teatrais e produções audiovisuais que
registram a formação do município e a identidade de sua população. Entre os
artistas que contribuíram para essa trajetória está Ronaldo Adriano, ator,
roteirista e diretor que iniciou sua caminhada no teatro em 1991, no Teatro
Experimental de Alta Floresta.
Embora já tivesse participado de
experiências teatrais na igreja de outra cidade, foi no Teatro Experimental que
compreendeu a arte como forma de expressão humana. O reconhecimento de sua
identidade artística veio em 1997, durante o espetáculo A História do Juiz.
“Foi a partir dali que pensei: ‘Gosto disso e quero
seguir nesse caminho’”, recorda.
Desde então, Ronaldo participou de produções que
retrataram a realidade local e se dedicou ao audiovisual, utilizando a criação
artística para preservar acontecimentos, personagens e transformações sociais.
Ao destacar os principais acontecimentos culturais de
Alta Floresta, Ronaldo lembra o surgimento do Festival da Canção de Alta
Floresta (FESCAF), em 1981. A iniciativa foi de Paulo Roberto Martins,
conhecido como Paulinho, com a participação de José Luiz Teixeira, então
secretário municipal de Educação, e de Donizete Aparecido Ramos. Paulinho e
Donizete já faleceram.
Inspirado nos grandes festivais de música promovidos
pela televisão brasileira nas décadas de 1960 e 1970, o FESCAF tornou-se uma
referência da produção artística local.
Outro marco foi a criação do Teatro Experimental,
apontado pelo artista como a primeira instituição artístico-cultural
formalmente constituída no município. A entidade mantém sua atuação na produção
de espetáculos e na promoção de reflexões por meio do teatro.
Entre as obras mais significativas está Fragmentos de
Vida, cuja montagem começou em 1995, com estreia em março de 1996. Ronaldo
integrou o elenco da peça, cuja dramaturgia foi desenvolvida por Agostinho
Bisinoto, com a participação de outros integrantes, entre eles José Alessandro
Rodrigues.
O espetáculo retratou a formação de Alta Floresta,
abordando a chegada dos pioneiros não indígenas, o garimpo, as dificuldades de
acesso à saúde e os problemas no fornecimento de energia elétrica, então gerada
por motores a diesel, com apagões frequentes.
A produção permaneceu no repertório do Teatro
Experimental durante dez anos. Em 2006, foi remontada com uma proposta que
incluía apresentações em espaços abertos, como uma cena em que os atores
atravessavam uma lagoa de barco.
Inspirada também na pesquisa acadêmica A Lenda do Ouro
Verde, a peça motivou dissertações, debates e estudos científicos sobre a
história local. Anos depois, a autora da pesquisa assistiu ao espetáculo e
relatou ter ficado emocionada com o trabalho.
“ A peça representa a formação da região e a história
de todos nós que vivemos aqui há muito tempo”, afirma Ronaldo.
No audiovisual, Ronaldo destaca o curta-metragem
Vestígios do Tempo, no qual atuou como roteirista e diretor. A ficção,
inspirada na história do garimpo e em sua relação com o desenvolvimento de Alta
Floresta, contou com uma equipe de Cuiabá e foi realizada com estrutura
profissional.
Para o artista, a produção cultural nasce da
observação e das experiências vividas. Ao transformar a realidade em arte, o
criador possibilita reflexões e registra aspectos de uma época.
Ele também ressalta a contribuição das artes visuais,
lembrando de Paulinho, que retratava a cidade, seus lugares e personagens. Suas
obras permitem observar o passado e compreender aspectos da formação local.
Outro marco citado por Ronaldo Adriano é o tombamento
do avião Douglas DC-3, que identifica como o primeiro patrimônio
histórico-cultural do município.
A memória cultural, porém, também está presente nos
costumes e na linguagem. A convivência entre migrantes de diferentes regiões,
pioneiros da agricultura e trabalhadores do garimpo contribuiu para a formação
de uma identidade própria, perceptível nas construções, nos hábitos e no
sotaque da população.
“Essa mistura influencia o jeito das casas, a maneira
como falamos e até o nosso sotaque”, explica.
Ronaldo considera Alta Floresta privilegiada por
possuir manifestações artísticas desde antes de sua emancipação. A Avenida
Ariosto da Riva, por exemplo, era um dos espaços de encontro da comunidade, com
apresentações teatrais, eventos musicais e outras atividades.
Ao recordar esse período, Ronaldo Adriano menciona a
pioneira Jeni Custódia Leal, falecida em março de 2021, vítima da Covid-19, que,
segundo sua lembrança, foi a primeira mulher a tocar sanfona e desenvolver esse
trabalho cultural na cidade.
Apesar dessa tradição, a falta de políticas públicas
permanentes e de incentivos representa um obstáculo à continuidade dos
projetos. O artista também aponta a ideia equivocada de que a produção cultural
se concentra nos grandes centros, desconsiderando a contribuição dos municípios
do interior.
A sustentabilidade profissional é outra dificuldade.
Muitos artistas precisam exercer outras atividades para garantir renda, pois
nem sempre conseguem viver exclusivamente da arte.
Na avaliação de Ronaldo, Alta Floresta amadureceu
culturalmente e conta com profissionais qualificados, alguns reconhecidos fora
do município e participantes de eventos internacionais. Entretanto, ele observa
que o número de produções e de pessoas envolvidas no setor já foi maior em
outros períodos.
“Precisamos equilibrar essa qualidade com o volume de
produção e com o acesso da população às manifestações artísticas”, defende.
Para ele, é necessário ampliar as oportunidades de
produção, incentivar novos artistas e aproximar o público dos espetáculos, da
música, da literatura e do cinema. Também considera fundamental garantir
continuidade às políticas culturais, evitando que as mudanças de gestão
interrompam iniciativas.
Apesar das dificuldades, Ronaldo vê o futuro com
otimismo e destaca a diversidade de linguagens artísticas presente em Alta
Floresta, especialmente em comparação com outros municípios do norte de Mato
Grosso.
Ronaldo Adriano atribui ao jornalismo um papel
essencial na divulgação dos artistas e na preservação da história local. Entre
os desafios, aponta a falta de espaços específicos dedicados à cobertura
cultural, situação agravada pela estrutura reduzida das redações, cujos
profissionais precisam atender a diferentes áreas.
Para ele, a imprensa pode contribuir com a divulgação
de espetáculos, filmes, livros e exposições, mas também com o registro das
trajetórias de artistas e das transformações culturais do município.
Ao recordar a importância dos festivais de música brasileiros
durante a ditadura militar, menciona compositores como Milton Nascimento e
Chico Buarque. No cenário local, destaca as letras de Paulinho, as composições
de César Trindade, as participações de Gabriel Navarro e de seu irmão nos
festivais e as peças de Agostinho Bisinoto.
Essas produções, segundo o artista, ajudam a
constituir a identidade da população e merecem registros que permitam às
próximas gerações conhecer sua importância.
“O jornalismo também lida com esse
campo da sensibilidade, com aquilo que não é tangível, mas que permanece e nos
constitui como seres humanos e culturais”, afirma.
Em um município que completa 50 anos em 2026, a
trajetória de Ronaldo Adriano evidencia a contribuição da arte para compreender
a formação de Alta Floresta. Preservar essa história significa reconhecer os
pioneiros, valorizar os artistas atuais e garantir que suas obras e
experiências continuem acessíveis às futuras gerações.