Com 50 anos de história, Alta Floresta é formada pela
diversidade de pessoas, tradições e experiências que chegaram de diferentes
regiões do Brasil. Essa pluralidade caracteriza a identidade cultural do
município e, ao mesmo tempo, traz desafios para a preservação da memória e a
valorização dos artistas. À frente da Secretaria Municipal de Cultura e
Juventude há dois meses, a atriz e gestora cultural Angélica Oliveira Miller,
conhecida artisticamente como Angélica Miller, defende o fortalecimento das
políticas públicas, a participação da sociedade e a divulgação das
manifestações artísticas como caminhos para ampliar o acesso à cultura.
A relação de Angélica com o setor cultural começou em
2000, quando iniciou sua formação teatral em uma oficina oferecida pela própria
Secretaria de Cultura. Vinte e seis anos depois, ela passou a ocupar o cargo de
secretária, experiência que lhe permite acompanhar a cultura tanto pela
perspectiva de artista quanto pela responsabilidade de gestão pública.
Essa vivência também influencia sua avaliação sobre a
importância de ampliar o acesso às atividades culturais e tornar as
oportunidades existentes mais conhecidas pela população.
Para Angélica, compreender a identidade cultural de
Alta Floresta exige reconhecer que ela não está vinculada a uma única tradição,
mas resulta da contribuição de pessoas de diversas origens.
“Somos um município novo, com 50 anos, marcado por uma
miscigenação de culturas. Por isso, podemos dizer que Alta Floresta não tem um
viés cultural único. Somos pluriculturais enquanto município”, afirma.
Na avaliação da secretária, os costumes, a linguagem,
a alimentação, as formas de vestir e as relações sociais integram esse
patrimônio. A cultura, portanto, não se limita a eventos ou apresentações
artísticas: está presente no cotidiano e nas experiências compartilhadas pela
população.
“Somos seres culturais e sociais. Não há como
desvincular a cultura do social”, ressalta.
Essa diversidade reforça a importância de reconhecer
as diferentes manifestações que compõem a história local, desde a cultura
popular até as expressões artísticas contemporâneas, valorizando as
contribuições de quem ajudou a construir o município.
Angélica destaca que a trajetória cultural de Alta
Floresta passou por diferentes fases. Segundo ela, houve períodos de maior
valorização do setor entre as décadas de 1990, 2000 e 2010, seguidos por um
enfraquecimento que também refletiu mudanças no cenário nacional.
A pandemia de Covid-19 agravou as dificuldades ao
interromper atividades presenciais e comprometer o funcionamento de grupos e
espaços culturais. Ao mesmo tempo, políticas nacionais de fomento
possibilitaram repasses de recursos aos municípios, criando oportunidades para
investimentos e apoio aos artistas.
O teatro foi particularmente afetado pelo
distanciamento social, já que depende do encontro entre artistas e público.
Segundo Angélica, grupos que atuavam havia bastante tempo acabaram se
desfazendo durante esse período.
“Embora esteja na Secretaria de Cultura, também sou
artista de teatro. O teatro acontece presencialmente. A pandemia fez com que
muitos grupos de teatro que existiam havia bastante tempo se desfizessem”,
relata.
Atualmente, a secretaria mantém equipamentos
culturais, como a galeria de artes e a biblioteca municipal, além de promover
eventos previstos no calendário da cidade, entre eles as festas juninas, o
Natal, o Ano-Novo e o Festival da Canção de Alta Floresta (Fescaf), que ficou
alguns anos sem ser realizado e permanece no calendário cultural.
A galeria recebe exposições e está aberta à visitação,
embora, conforme a secretária, ainda registre pouca procura. A biblioteca
funciona de segunda a sexta-feira, com acervo disponível para consulta, e passa
por um processo de modernização. A previsão informada por Angélica é que, até o
final do ano, o espaço receba equipamentos tecnológicos e computadores.
Para a gestora, a valorização cultural depende da
continuidade das iniciativas públicas e do envolvimento da sociedade, cuja
participação pode ampliar o alcance das atividades, fortalecer os artistas e
estimular o consumo cultural.
Entre os pontos que Angélica considera mais frágeis na
estrutura cultural do município está a organização dos registros históricos.
Apesar da existência de documentos e materiais sobre ações e acontecimentos
culturais, falta uma estrutura específica para catalogar, preservar e
disponibilizar esse acervo de maneira sistemática.
A secretária explica que a organização da memória
exige profissionais especializados, planejamento contínuo e recursos
financeiros.
“Precisamos de uma pessoa — na verdade, de um grupo —
ou de uma estrutura voltada especificamente para a memória”, afirma.
A dificuldade não se restringe à Secretaria de
Cultura. Angélica observa que a preservação documental e a organização de
arquivos também são questões relevantes para a administração pública, pois
permitem conservar informações importantes para compreender a evolução das instituições
e da sociedade.
Em um município com cinco décadas de história, a
sistematização desses registros pode ajudar a reconstruir trajetórias de
artistas, documentar manifestações culturais e reconhecer pessoas e iniciativas
que participaram da formação da identidade local.
Para avançar nesse trabalho, a secretária considera
necessária uma estrutura técnica adequada, com profissionais capacitados e
recursos para organizar e divulgar o material existente.
A diversidade cultural de Alta
Floresta também se manifesta em linguagens contemporâneas, como o audiovisual,
o grafite e outras expressões da arte urbana. Para Angélica, o apoio a esses
segmentos precisa integrar uma política cultural abrangente, capaz de
contemplar diferentes áreas sem concentrar recursos ou oportunidades em apenas
uma delas.
Entre os instrumentos de fomento, ela menciona a
Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, que prevê recursos para
diferentes segmentos artísticos e culturais. A secretária ressalta a
importância de transformar as diretrizes previstas no plano municipal em
políticas efetivas, que atendam às necessidades dos profissionais e produtores
culturais.
O audiovisual, em particular, demanda atenção devido
aos custos de produção. Embora os celulares tenham ampliado as possibilidades
de gravação, projetos estruturados exigem investimentos em equipamentos,
equipes e outras etapas de realização.
“Precisamos conseguir chegar a todos os segmentos. Não
podemos olhar apenas para uma área, mas precisamos contemplar todas, mesmo
sabendo que esse é um desafio”, pontua.
A divulgação das atividades é outro aspecto
considerado essencial pela secretária. Para ela, a comunicação permite que a
população conheça os serviços, os projetos e as oportunidades oferecidas pelo
poder público, além de contribuir para a preservação da memória cultural.
Angélica Muller observa que parte dos moradores ainda
desconhece as atividades artísticas gratuitas disponíveis no município. Para
mudar esse cenário, considera fundamental ampliar a divulgação e fazer com que
as informações cheguem a diferentes públicos e regiões, para além da área
central.
“Sem comunicação não chegamos a lugar nenhum”, afirma.
A experiência de Angélica Miller, que iniciou sua
formação artística em uma iniciativa pública e hoje responde pela gestão
cultural do município, evidencia a importância de garantir oportunidades de
acesso à arte e fortalecer as estruturas que sustentam a produção cultural.
Em seus 50 anos, Alta Floresta reúne diferentes
trajetórias que ajudam a explicar sua identidade. Valorizar os artistas, apoiar
diversas linguagens, preservar a memória e divulgar as iniciativas existentes
são medidas fundamentais para fortalecer esse patrimônio coletivo e garantir
que a história cultural do município permaneça acessível às novas gerações.