Alta Floresta

31 de outubro de 2026

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Angélica Miller destaca diversidade cultural e defende mais visibilidade para a história de Alta Floresta

Atriz e secretária de Cultura e Juventude aborda os desafios da preservação da memória do município, o fortalecimento das políticas culturais e a importância da comunicação para valorizar artistas e manifestações locais

Angélica Miller destaca diversidade cultural e defende mais visibilidade para a história de Alta Floresta
Lindomar Leal

Com 50 anos de história, Alta Floresta é formada pela diversidade de pessoas, tradições e experiências que chegaram de diferentes regiões do Brasil. Essa pluralidade caracteriza a identidade cultural do município e, ao mesmo tempo, traz desafios para a preservação da memória e a valorização dos artistas. À frente da Secretaria Municipal de Cultura e Juventude há dois meses, a atriz e gestora cultural Angélica Oliveira Miller, conhecida artisticamente como Angélica Miller, defende o fortalecimento das políticas públicas, a participação da sociedade e a divulgação das manifestações artísticas como caminhos para ampliar o acesso à cultura.

A relação de Angélica com o setor cultural começou em 2000, quando iniciou sua formação teatral em uma oficina oferecida pela própria Secretaria de Cultura. Vinte e seis anos depois, ela passou a ocupar o cargo de secretária, experiência que lhe permite acompanhar a cultura tanto pela perspectiva de artista quanto pela responsabilidade de gestão pública.

Essa vivência também influencia sua avaliação sobre a importância de ampliar o acesso às atividades culturais e tornar as oportunidades existentes mais conhecidas pela população.

Para Angélica, compreender a identidade cultural de Alta Floresta exige reconhecer que ela não está vinculada a uma única tradição, mas resulta da contribuição de pessoas de diversas origens.

“Somos um município novo, com 50 anos, marcado por uma miscigenação de culturas. Por isso, podemos dizer que Alta Floresta não tem um viés cultural único. Somos pluriculturais enquanto município”, afirma.

Na avaliação da secretária, os costumes, a linguagem, a alimentação, as formas de vestir e as relações sociais integram esse patrimônio. A cultura, portanto, não se limita a eventos ou apresentações artísticas: está presente no cotidiano e nas experiências compartilhadas pela população.

“Somos seres culturais e sociais. Não há como desvincular a cultura do social”, ressalta.

Essa diversidade reforça a importância de reconhecer as diferentes manifestações que compõem a história local, desde a cultura popular até as expressões artísticas contemporâneas, valorizando as contribuições de quem ajudou a construir o município.

Angélica destaca que a trajetória cultural de Alta Floresta passou por diferentes fases. Segundo ela, houve períodos de maior valorização do setor entre as décadas de 1990, 2000 e 2010, seguidos por um enfraquecimento que também refletiu mudanças no cenário nacional.

A pandemia de Covid-19 agravou as dificuldades ao interromper atividades presenciais e comprometer o funcionamento de grupos e espaços culturais. Ao mesmo tempo, políticas nacionais de fomento possibilitaram repasses de recursos aos municípios, criando oportunidades para investimentos e apoio aos artistas.

O teatro foi particularmente afetado pelo distanciamento social, já que depende do encontro entre artistas e público. Segundo Angélica, grupos que atuavam havia bastante tempo acabaram se desfazendo durante esse período.

“Embora esteja na Secretaria de Cultura, também sou artista de teatro. O teatro acontece presencialmente. A pandemia fez com que muitos grupos de teatro que existiam havia bastante tempo se desfizessem”, relata.

Atualmente, a secretaria mantém equipamentos culturais, como a galeria de artes e a biblioteca municipal, além de promover eventos previstos no calendário da cidade, entre eles as festas juninas, o Natal, o Ano-Novo e o Festival da Canção de Alta Floresta (Fescaf), que ficou alguns anos sem ser realizado e permanece no calendário cultural.

A galeria recebe exposições e está aberta à visitação, embora, conforme a secretária, ainda registre pouca procura. A biblioteca funciona de segunda a sexta-feira, com acervo disponível para consulta, e passa por um processo de modernização. A previsão informada por Angélica é que, até o final do ano, o espaço receba equipamentos tecnológicos e computadores.

Para a gestora, a valorização cultural depende da continuidade das iniciativas públicas e do envolvimento da sociedade, cuja participação pode ampliar o alcance das atividades, fortalecer os artistas e estimular o consumo cultural.

Entre os pontos que Angélica considera mais frágeis na estrutura cultural do município está a organização dos registros históricos. Apesar da existência de documentos e materiais sobre ações e acontecimentos culturais, falta uma estrutura específica para catalogar, preservar e disponibilizar esse acervo de maneira sistemática.

A secretária explica que a organização da memória exige profissionais especializados, planejamento contínuo e recursos financeiros.

“Precisamos de uma pessoa — na verdade, de um grupo — ou de uma estrutura voltada especificamente para a memória”, afirma.

A dificuldade não se restringe à Secretaria de Cultura. Angélica observa que a preservação documental e a organização de arquivos também são questões relevantes para a administração pública, pois permitem conservar informações importantes para compreender a evolução das instituições e da sociedade.

Em um município com cinco décadas de história, a sistematização desses registros pode ajudar a reconstruir trajetórias de artistas, documentar manifestações culturais e reconhecer pessoas e iniciativas que participaram da formação da identidade local.

Para avançar nesse trabalho, a secretária considera necessária uma estrutura técnica adequada, com profissionais capacitados e recursos para organizar e divulgar o material existente.

            A diversidade cultural de Alta Floresta também se manifesta em linguagens contemporâneas, como o audiovisual, o grafite e outras expressões da arte urbana. Para Angélica, o apoio a esses segmentos precisa integrar uma política cultural abrangente, capaz de contemplar diferentes áreas sem concentrar recursos ou oportunidades em apenas uma delas.

Entre os instrumentos de fomento, ela menciona a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, que prevê recursos para diferentes segmentos artísticos e culturais. A secretária ressalta a importância de transformar as diretrizes previstas no plano municipal em políticas efetivas, que atendam às necessidades dos profissionais e produtores culturais.

O audiovisual, em particular, demanda atenção devido aos custos de produção. Embora os celulares tenham ampliado as possibilidades de gravação, projetos estruturados exigem investimentos em equipamentos, equipes e outras etapas de realização.

“Precisamos conseguir chegar a todos os segmentos. Não podemos olhar apenas para uma área, mas precisamos contemplar todas, mesmo sabendo que esse é um desafio”, pontua.

A divulgação das atividades é outro aspecto considerado essencial pela secretária. Para ela, a comunicação permite que a população conheça os serviços, os projetos e as oportunidades oferecidas pelo poder público, além de contribuir para a preservação da memória cultural.

Angélica Muller observa que parte dos moradores ainda desconhece as atividades artísticas gratuitas disponíveis no município. Para mudar esse cenário, considera fundamental ampliar a divulgação e fazer com que as informações cheguem a diferentes públicos e regiões, para além da área central.

“Sem comunicação não chegamos a lugar nenhum”, afirma.

A experiência de Angélica Miller, que iniciou sua formação artística em uma iniciativa pública e hoje responde pela gestão cultural do município, evidencia a importância de garantir oportunidades de acesso à arte e fortalecer as estruturas que sustentam a produção cultural.

Em seus 50 anos, Alta Floresta reúne diferentes trajetórias que ajudam a explicar sua identidade. Valorizar os artistas, apoiar diversas linguagens, preservar a memória e divulgar as iniciativas existentes são medidas fundamentais para fortalecer esse patrimônio coletivo e garantir que a história cultural do município permaneça acessível às novas gerações.

Lindomar Leal - MTB 1569
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