Alta Floresta

31 de outubro de 2026

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Wilson Gaia transforma muros em arte e leva a identidade de Alta Floresta para outros países

Artista encontrou no grafite uma profissão, desenvolve projetos sociais com crianças e jovens e utiliza a natureza e as aves do município para valorizar a cultura local

Wilson Gaia transforma muros em arte e leva a identidade de Alta Floresta para outros países
Lindomar Leal

A arte urbana tem o poder de transformar espaços, expressar identidades e preservar histórias. Em Alta Floresta, o grafiteiro Wilson Caldas Gaia encontrou oportunidades para ampliar sua trajetória artística, transformar a arte em profissão e levar referências culturais do município para diferentes lugares do Brasil e do exterior. Com obras que retratam a natureza, as aves da região e elementos de sua origem paraense, o artista conecta experiências pessoais, cultura urbana e valorização do território onde vive.

Antes de se dedicar integralmente ao grafite, Wilson trabalhava na área de usinas elétricas, em Goiânia, quando recebeu um convite para vir a Alta Floresta. Sua chegada abriu caminhos para novas experiências. Ele participou de um evento de descoberta de talentos na Igreja Batista Nacional, onde surgiram oportunidades ligadas à arte e ao break, dança de rua que integra a cultura hip-hop.

Posteriormente, começou a trabalhar na Prefeitura Municipal de Alta Floresta e desenvolveu atividades com grafite no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), por meio de projetos sociais. Embora já praticasse a arte desde o período em que vivia no Pará, ainda a conciliava com outra profissão.

A mudança definitiva ocorreu durante a pandemia de Covid-19, quando aumentou a procura por pinturas em ambientes residenciais. Com os convites se multiplicando, Wilson decidiu abandonar a antiga atividade profissional para viver exclusivamente do grafite.

“Eu já fazia grafite, mas não com tanta intensidade, porque não vivia disso. Eu tinha um trabalho e fazia grafite mais como hobby. Hoje, o grafite é minha profissão”, relata.

A mudança também ampliou suas possibilidades de atuação. Atualmente, o artista viaja pelo Brasil e já realizou trabalhos no Chile e na Argentina, experiências que considera marcantes em sua trajetória.

“Alta Floresta ampliou meus horizontes. Hoje, moro aqui, mas viajo pelo Brasil todo”, afirma.

A produção de Wilson reúne referências culturais de diferentes lugares. Atualmente, ele trabalha com lendas urbanas tradicionais de diversos estados, elementos de sua origem paraense e aspectos da biodiversidade de Alta Floresta. A intenção é conectar essas referências e representar, por meio da arte, a identidade dos territórios.

No município, as aves e a natureza ocupam lugar de destaque. Entre os trabalhos que o artista recorda está uma pintura realizada no antigo zoológico, com representações de aves características da região.

A arara-canindé também aparece em sua produção como símbolo de Alta Floresta. A ave foi retratada inclusive em uma pintura realizada na Argentina, levando uma referência local para além das fronteiras brasileiras.

“Eu queria representar o lugar onde estou e levar um pouco da cultura de Alta Floresta para os lugares por onde passo”, explica.

A iniciativa mostra como o grafite pode contribuir para divulgar a biodiversidade e a identidade cultural do município, transformando elementos da paisagem regional em referências reconhecidas por diferentes públicos.

As viagens internacionais permitiram a Wilson Gaia conhecer outros públicos e observar a receptividade à cultura brasileira. Segundo ele, foi bem recebido no Chile e encontrou uma experiência diferente na Argentina, mas também positiva. Nessas ocasiões, percebeu que nomes como Pelé e Ronaldo Fenômeno continuam sendo referências bastante lembradas quando o assunto é Brasil.

Mais do que apresentar suas pinturas em outros países, o artista destaca a emoção de alcançar espaços que antes pareciam distantes de sua realidade.

“É incrível. Nunca imaginei que conseguiria representar o Brasil e levar minha arte para outro país por meio do grafite”, conta.

Ao recordar o início da carreira, ele reconhece a dimensão da transformação vivida. “O Wilson daquela época não imaginava que um dia estaria em outro país, pintando paredes e representando sua arte. É muito louco ver tudo isso acontecendo”, afirma.

Para Wilson, pintar também é uma experiência de liberdade e tranquilidade. Nem sempre a criação começa com uma ideia definida: muitas vezes, o desenho se desenvolve diante da própria parede, a partir de um pequeno esboço.

“Sinto paz. Tenho a liberdade de criar o que quiser. Muitas vezes, quando chego diante de uma parede, não tenho uma ideia definida. Vou criando na hora, e minha mente vai se abrindo naquele momento”, descreve.

Apesar das oportunidades conquistadas, Wilson aponta o preconceito como uma das principais dificuldades enfrentadas pelos grafiteiros. Segundo ele, a manifestação artística ainda é frequentemente confundida com a pichação, o que provoca julgamentos equivocados sobre o trabalho.

O artista também relata situações em que as pessoas tentam associar o grafiteiro a determinado posicionamento político antes mesmo de conhecer a obra.

“Acredito que essa seja uma das principais dificuldades enfrentadas atualmente pelos artistas”, avalia.

Para mudar esse cenário, Wilson defende mais informação sobre a arte urbana e suas diferentes manifestações. “As pessoas precisam abrir a mente e compreender que o grafite não é necessariamente político. O artista que está ali está expressando sua arte”, argumenta.

O reconhecimento da expressão artística, em sua avaliação, passa pela compreensão de suas características e pela superação de julgamentos antecipados.

A atuação social de Wilson tem relação direta com sua própria história. Ele conta que começou a se aproximar do grafite por meio do ProJovem, projeto que lhe apresentou novas possibilidades e o fez perceber que era possível transformar a arte em fonte de renda.

A experiência influenciou sua decisão de desenvolver ações voltadas à juventude. Atualmente, ele é presidente da Central Única das Favelas (CUFA) e mantém o centro cultural Ágape, onde trabalha com crianças por meio de projetos sociais. Também leva jovens para participar de competições de break fora de Alta Floresta.

“Quando conheci o grafite, encontrei uma realidade completamente diferente. Pensei: ‘Poxa, o cara está vivendo disso, está ganhando dinheiro com isso’. Foi quando percebi que também poderia viver do grafite”, relembra.

Além das atividades culturais, Wilson trabalha com captação de recursos e orienta pessoas que atuam com grafite e break na elaboração de projetos e na busca por financiamento. O objetivo é contribuir para que esses profissionais possam continuar trabalhando com aquilo de que gostam.

Para ele, o hip-hop, que reúne grafite, break, MCs e DJs, oferece oportunidades de formação, convivência e desenvolvimento profissional.

“Acredito que o grafite e a cultura urbana, representada pelo hip-hop, têm essa capacidade de transformar realidades, tirar os jovens de situações difíceis e oferecer oportunidades para que possam viver da arte”, destaca.

Entre os locais que marcaram sua trajetória em Alta Floresta, Wilson destaca o ginásio e centro cultural onde realizou uma de suas primeiras pinturas em parceria com outros artistas. O grafite na parte frontal do espaço representa uma etapa importante de seu início profissional.

O local também está ligado ao festival Minha Cidade Viva, que teve uma edição contemplada para a pintura de todas as paredes do espaço cultural. Para o artista, a experiência representou uma evolução pessoal e profissional.

Wilson defende a criação de mais espaços destinados à produção artística, ao ensino e à realização de eventos. Segundo ele, esses ambientes permitem receber artistas de outras localidades, promover intercâmbios e fortalecer as diferentes expressões culturais.

“Além de produzir grafites, nós ensinamos, trazemos pessoas de fora e promovemos um movimento cultural amplo”, afirma.

Outro aspecto que considera fundamental é o registro das obras. Como os muros podem ser repintados, modificados ou demolidos, a fotografia permite preservar a memória de trabalhos que deixam de existir fisicamente.

“Sempre digo que, quando faço um grafite e tiro uma fotografia, mesmo que a pessoa pinte outra coisa por cima no dia seguinte, para mim o registro já está feito”, explica.

O artista destaca que a divulgação das imagens na internet amplia o acesso às obras e ajuda a documentar a trajetória dos grafiteiros. Fotografias, reportagens e vídeos também podem contribuir para preservar a memória cultural de Alta Floresta, registrando as intervenções artísticas e os espaços que fizeram parte da história do município.

“É uma memória que fica gravada para sempre, independentemente de o muro continuar existindo ou ser derrubado”, resume.

A trajetória de Wilson Caldas Gaia mostra como a arte urbana pode transformar experiências individuais em oportunidades profissionais e ações de interesse coletivo. De uma atividade praticada como hobby à realização de trabalhos em outros países, o grafite tornou-se uma forma de expressão, sustento e conexão cultural.

Em Alta Floresta, a natureza e as aves inspiram obras que levam a identidade local para outros territórios. Paralelamente, os projetos sociais e a defesa de espaços culturais ampliam o alcance de seu trabalho, aproximando crianças e jovens da arte.

Lindomar Leal - MTB 1569
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