A arte urbana tem o poder de transformar espaços,
expressar identidades e preservar histórias. Em Alta Floresta, o grafiteiro
Wilson Caldas Gaia encontrou oportunidades para ampliar sua trajetória
artística, transformar a arte em profissão e levar referências culturais do
município para diferentes lugares do Brasil e do exterior. Com obras que
retratam a natureza, as aves da região e elementos de sua origem paraense, o
artista conecta experiências pessoais, cultura urbana e valorização do
território onde vive.
Antes de se dedicar integralmente ao grafite, Wilson
trabalhava na área de usinas elétricas, em Goiânia, quando recebeu um convite
para vir a Alta Floresta. Sua chegada abriu caminhos para novas experiências.
Ele participou de um evento de descoberta de talentos na Igreja Batista
Nacional, onde surgiram oportunidades ligadas à arte e ao break, dança de rua
que integra a cultura hip-hop.
Posteriormente, começou a trabalhar na Prefeitura
Municipal de Alta Floresta e desenvolveu atividades com grafite no Centro de
Referência de Assistência Social (CRAS), por meio de projetos sociais. Embora
já praticasse a arte desde o período em que vivia no Pará, ainda a conciliava
com outra profissão.
A mudança definitiva ocorreu durante a pandemia de
Covid-19, quando aumentou a procura por pinturas em ambientes residenciais. Com
os convites se multiplicando, Wilson decidiu abandonar a antiga atividade
profissional para viver exclusivamente do grafite.
“Eu já fazia grafite, mas não com tanta intensidade,
porque não vivia disso. Eu tinha um trabalho e fazia grafite mais como hobby.
Hoje, o grafite é minha profissão”, relata.
A mudança também ampliou suas possibilidades de
atuação. Atualmente, o artista viaja pelo Brasil e já realizou trabalhos no Chile
e na Argentina, experiências que considera marcantes em sua trajetória.
“Alta Floresta ampliou meus horizontes. Hoje, moro
aqui, mas viajo pelo Brasil todo”, afirma.
A produção de Wilson reúne referências culturais de
diferentes lugares. Atualmente, ele trabalha com lendas urbanas tradicionais de
diversos estados, elementos de sua origem paraense e aspectos da biodiversidade
de Alta Floresta. A intenção é conectar essas referências e representar, por
meio da arte, a identidade dos territórios.
No município, as aves e a natureza ocupam lugar de
destaque. Entre os trabalhos que o artista recorda está uma pintura realizada
no antigo zoológico, com representações de aves características da região.
A arara-canindé também aparece em sua produção como
símbolo de Alta Floresta. A ave foi retratada inclusive em uma pintura
realizada na Argentina, levando uma referência local para além das fronteiras
brasileiras.
“Eu queria representar o lugar onde estou e levar um
pouco da cultura de Alta Floresta para os lugares por onde passo”, explica.
A iniciativa mostra como o grafite pode contribuir
para divulgar a biodiversidade e a identidade cultural do município,
transformando elementos da paisagem regional em referências reconhecidas por
diferentes públicos.
As viagens internacionais permitiram a Wilson Gaia conhecer
outros públicos e observar a receptividade à cultura brasileira. Segundo ele,
foi bem recebido no Chile e encontrou uma experiência diferente na Argentina,
mas também positiva. Nessas ocasiões, percebeu que nomes como Pelé e Ronaldo
Fenômeno continuam sendo referências bastante lembradas quando o assunto é
Brasil.
Mais do que apresentar suas pinturas em outros países,
o artista destaca a emoção de alcançar espaços que antes pareciam distantes de
sua realidade.
“É incrível. Nunca imaginei que conseguiria
representar o Brasil e levar minha arte para outro país por meio do grafite”,
conta.
Ao recordar o início da carreira, ele reconhece a
dimensão da transformação vivida. “O Wilson daquela época não imaginava que um
dia estaria em outro país, pintando paredes e representando sua arte. É muito
louco ver tudo isso acontecendo”, afirma.
Para Wilson, pintar também é uma experiência de
liberdade e tranquilidade. Nem sempre a criação começa com uma ideia definida:
muitas vezes, o desenho se desenvolve diante da própria parede, a partir de um
pequeno esboço.
“Sinto paz. Tenho a liberdade de criar o que quiser.
Muitas vezes, quando chego diante de uma parede, não tenho uma ideia definida.
Vou criando na hora, e minha mente vai se abrindo naquele momento”, descreve.
Apesar das oportunidades conquistadas, Wilson aponta o
preconceito como uma das principais dificuldades enfrentadas pelos grafiteiros.
Segundo ele, a manifestação artística ainda é frequentemente confundida com a
pichação, o que provoca julgamentos equivocados sobre o trabalho.
O artista também relata situações em que as pessoas
tentam associar o grafiteiro a determinado posicionamento político antes mesmo
de conhecer a obra.
“Acredito que essa seja uma das principais
dificuldades enfrentadas atualmente pelos artistas”, avalia.
Para mudar esse cenário, Wilson defende mais
informação sobre a arte urbana e suas diferentes manifestações. “As pessoas
precisam abrir a mente e compreender que o grafite não é necessariamente
político. O artista que está ali está expressando sua arte”, argumenta.
O reconhecimento da expressão artística, em sua
avaliação, passa pela compreensão de suas características e pela superação de
julgamentos antecipados.
A atuação social de Wilson tem relação direta com sua
própria história. Ele conta que começou a se aproximar do grafite por meio do
ProJovem, projeto que lhe apresentou novas possibilidades e o fez perceber que
era possível transformar a arte em fonte de renda.
A experiência influenciou sua decisão de desenvolver
ações voltadas à juventude. Atualmente, ele é presidente da Central Única das
Favelas (CUFA) e mantém o centro cultural Ágape, onde trabalha com crianças por
meio de projetos sociais. Também leva jovens para participar de competições de
break fora de Alta Floresta.
“Quando conheci o grafite, encontrei uma realidade
completamente diferente. Pensei: ‘Poxa, o cara está vivendo disso, está
ganhando dinheiro com isso’. Foi quando percebi que também poderia viver do
grafite”, relembra.
Além das atividades culturais, Wilson trabalha com
captação de recursos e orienta pessoas que atuam com grafite e break na
elaboração de projetos e na busca por financiamento. O objetivo é contribuir
para que esses profissionais possam continuar trabalhando com aquilo de que
gostam.
Para ele, o hip-hop, que reúne grafite, break, MCs e
DJs, oferece oportunidades de formação, convivência e desenvolvimento
profissional.
“Acredito que o grafite e a cultura urbana,
representada pelo hip-hop, têm essa capacidade de transformar realidades, tirar
os jovens de situações difíceis e oferecer oportunidades para que possam viver
da arte”, destaca.
Entre os locais que marcaram sua trajetória em Alta
Floresta, Wilson destaca o ginásio e centro cultural onde realizou uma de suas
primeiras pinturas em parceria com outros artistas. O grafite na parte frontal
do espaço representa uma etapa importante de seu início profissional.
O local também está ligado ao festival Minha Cidade
Viva, que teve uma edição contemplada para a pintura de todas as paredes do
espaço cultural. Para o artista, a experiência representou uma evolução pessoal
e profissional.
Wilson defende a criação de mais espaços destinados à
produção artística, ao ensino e à realização de eventos. Segundo ele, esses
ambientes permitem receber artistas de outras localidades, promover
intercâmbios e fortalecer as diferentes expressões culturais.
“Além de produzir grafites, nós ensinamos, trazemos
pessoas de fora e promovemos um movimento cultural amplo”, afirma.
Outro aspecto que considera fundamental é o registro
das obras. Como os muros podem ser repintados, modificados ou demolidos, a
fotografia permite preservar a memória de trabalhos que deixam de existir
fisicamente.
“Sempre digo que, quando faço um grafite e tiro uma
fotografia, mesmo que a pessoa pinte outra coisa por cima no dia seguinte, para
mim o registro já está feito”, explica.
O artista destaca que a divulgação das imagens na
internet amplia o acesso às obras e ajuda a documentar a trajetória dos grafiteiros.
Fotografias, reportagens e vídeos também podem contribuir para preservar a
memória cultural de Alta Floresta, registrando as intervenções artísticas e os
espaços que fizeram parte da história do município.
“É uma memória que fica gravada para sempre,
independentemente de o muro continuar existindo ou ser derrubado”, resume.
A trajetória de Wilson Caldas Gaia mostra como a arte
urbana pode transformar experiências individuais em oportunidades profissionais
e ações de interesse coletivo. De uma atividade praticada como hobby à
realização de trabalhos em outros países, o grafite tornou-se uma forma de
expressão, sustento e conexão cultural.
Em Alta Floresta, a natureza e as aves inspiram obras
que levam a identidade local para outros territórios. Paralelamente, os
projetos sociais e a defesa de espaços culturais ampliam o alcance de seu
trabalho, aproximando crianças e jovens da arte.