Cuiabá (MT) — O deputado federal Fábio Garcia (União
Brasil) anunciou oficialmente nesta terça-feira, durante coletiva na Assembleia
Legislativa de Mato Grosso ao lado do governador Otaviano Pivetta
(Republicanos), que não será mais candidato a vice-governador na chapa à
reeleição. Em seu lugar, Garcia volta a disputar uma cadeira na Câmara dos
Deputados, buscando a reeleição.
A saída foi motivada, segundo o próprio parlamentar,
por restrições impostas pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal
(STF), no âmbito da investigação que deu origem à Operação Heritage, deflagrada
pela Polícia Federal em 6 de agosto. Garcia e o ex-governador Mauro Mendes
(União Brasil) — ambos alvos da operação — estão proibidos de manter contato
direto e de permanecer no mesmo local, o que, na avaliação do deputado,
inviabilizou a convivência política dentro da chapa.
“Essa decisão impõe a todos nós do nosso grupo
político uma restrição. Eu e o ex-governador Mauro Mendes, pela decisão do
ministro, não podemos nos comunicar, portanto, não podemos estar no mesmo
local”, declarou Garcia.
O deputado informou ainda que recebeu pedido formal
dos presidentes dos partidos que integram a coligação para reconsiderar a
candidatura a vice e retornar à disputa proporcional. Aceitou a mudança,
segundo afirmou, para que o projeto político do grupo possa avançar sem os
entraves impostos pela decisão judicial.
Operação Heritage é o pano de fundo da crise
A operação da Polícia Federal apura suspeitas de
crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, peculato, lavagem de dinheiro e
uso indevido de informação privilegiada, ligados a um acordo firmado entre o
Governo de Mato Grosso e a empresa de telefonia Oi. O suposto desvio de
recursos públicos ultrapassaria R$ 308 milhões. Além de Garcia e Mendes, a
investigação atinge também o conselheiro do Conselho Nacional de Justiça
Ulisses Rabaneda. Foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão em quatro
estados, além de decretarem-se o bloqueio de bens até o limite de R$ 316
milhões e o recolhimento de passaportes dos investigados.
É importante destacar que ser alvo de investigação não
equivale a condenação nem comprovação de participação em ilícitos. Pivetta
manifestou publicamente sua confiança na inocência de ambos: “Tenho certeza de
que são inocentes e terão oportunidade de apresentar suas defesas”. Garcia, por
sua vez, negou qualquer participação no esquema e afirmou não ter sido alvo de
busca em seus endereços.
Saída foi precedida de divergências internas
Bastidores revelam que a indicação de Garcia para a
vice passou a ser questionada no próprio círculo governista logo após a operação.
Enquanto Mauro Mendes defendia a permanência do nome na chapa, avaliando que a
substituição poderia soar como condenação antecipada, Pivetta teria demonstrado
disposição em alterar a composição para afastar o foco da campanha das
investigações. A saída de Garcia, segundo fontes, teria dado ao governador
maior autonomia na escolha do novo vice, reduzindo a influência direta do
ex-governador na chapa majoritária.
Disputa pela vice: Paulo José é o nome mais cotado
Pivetta confirmou que o novo nome para a vice será
anunciado ainda nesta terça-feira, até o fim do dia. Dentre os nomes
ventilados, ganha força o de Paulo José Correia (PP), ex-diretor do Serviço
de Saneamento Ambiental de Rondonópolis (Sanear). A escolha teria também viés
estratégico: amplia a presença eleitoral de Pivetta em Rondonópolis, principal
base do adversário Wellington Fagundes (PL), senador e candidato ao Governo.
Outros nomes mencionados são os de Alessandra Ferreira, primeira-dama de
Rondonópolis, e da deputada federal Gisela Simona.
A preferência de Pivetta por uma mulher para a vaga
vinha sendo declarada publicamente; porém, a substituição por um homem facilita
os ajustes na chapa proporcional, sem obrigar readequações à regra de cota de
gênero.
O que muda no cenário eleitoral
Com a saída de Garcia, três efeitos se desenham:
reduz-se o desgaste imediato da chapa majoritária em razão da operação; Garcia
permanece no projeto político, agora voltado à própria reeleição; e abre-se
espaço para que Pivetta redesenhe a composição da chapa, com menor dependência
articulatória em relação a Mauro Mendes. A volta do deputado à disputa por
deputado federal depende, ainda, de ajustes na chapa já homologada da federação
PP–União Brasil, podendo exigir a desistência de outro candidato.
A definição do novo vice será o primeiro indicador de
como o governador pretende reorganizar sua aliança eleitoral após a crise
deflagrada pela Operação Heritage — e em que medida consegue imprimir sua
própria marca na composição que seguirá até as urnas em outubro.