Há frases que parecem tão evidentes que passam
despercebidas. “Quem mal lê, mal sabe, mal ouve, mal vê” é uma delas. À
primeira vista, soa apenas como uma recomendação em favor dos livros, mas
contém um diagnóstico incômodo: a deficiência de leitura não limita somente o
que sabemos; compromete também a maneira como compreendemos aquilo que ouvimos,
vemos e escolhemos.
Não estamos falando apenas de
romances e bibliotecas, mas também da bula do remédio, do contrato bancário, da
intimação judicial, da notícia no celular e da promessa eleitoral. Entre o
cidadão e seus direitos existe quase sempre um texto. Quem não o compreende
precisa aceitar a interpretação alheia — e nem todo intérprete, convenhamos, é
movido pela caridade.
Não basta reconhecer as palavras. É possível
atravessar uma página inteira sem perceber o argumento, a ironia, a omissão ou
o interesse de quem escreveu. A alfabetização decifra o texto; a leitura
efetiva permite desconfiar dele. Uma abre a porta; a outra nos ensina a
descobrir quem está tentando entrar.
Em Mato Grosso, esse alarme soa de forma estridente. A
sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revelou que apenas 36%
dos mato-grossenses leram ao menos parte de um livro nos três meses anteriores
à entrevista. É o pior resultado do Centro-Oeste e o segundo pior do país, à
frente somente do Rio Grande do Norte.
Detenhamo-nos por um instante nesse número. Em um
estado que se orgulha de bater recordes econômicos, quase dois em cada três
habitantes não haviam lido sequer parte de um livro no período pesquisado.
Podemos celebrar safras e exportações, mas que futuro construiremos se a
expansão material não vier acompanhada do desenvolvimento intelectual?
A penúltima posição nacional não é mera curiosidade
estatística. É um chamado urgente ao Governo do Estado, aos municípios, às
escolas, às universidades, ao sistema de Justiça, às empresas, às famílias e a
cada um de nós.
Quem lê mal não terá dificuldade apenas na aula de
português. Terá problemas para interpretar uma questão de matemática,
acompanhar uma explicação de ciências ou seguir instruções técnicas. A leitura
é o chão sobre o qual as outras disciplinas caminham.
Sem ela, o estudante acumula lacunas. Muitas vezes, é
tachado de desinteressado, indisciplinado ou incapaz quando está apenas perdido
diante de uma linguagem que a escola pressupõe que ele domine. À medida que os
textos se tornam mais complexos, sua dificuldade aumenta. A vergonha vira
silêncio; o silêncio, afastamento; e o afastamento, por vezes, abandono.
Esse déficit não termina com a formatura — quando ela
acontece. O adulto com baixa proficiência leitora encontra mais dificuldades
para aprender novas tecnologias, interpretar normas de segurança, compreender
documentos e participar de cursos de capacitação. A limitação que começou na
sala de aula reaparece no trabalho, na renda e na liberdade de escolher um
caminho.
Mato Grosso conhece bem essa contradição. Temos uma
economia dinâmica, mas parte das vagas permanece aberta por falta de
profissionais qualificados. Em julho de 2026, dados do Imea e do Senar-MT
mostraram que quase 70% dos produtores rurais apontaram a falta de qualificação
técnica como o principal entrave para contratar.
Seria exagero atribuir toda essa carência à
deficiência de leitura. Mas não existe qualificação consistente sem a
capacidade de compreender textos, manuais, sistemas e procedimentos. Não se
trata apenas da ausência de leitura literária, mas também, por exemplo, da
dificuldade para interpretar os comandos de uma máquina agrícola de última
geração.
A vaga existe. O candidato também. E ambos podem
permanecer separados por uma deficiência iniciada muitos anos antes, diante de
uma página que não foi compreendida.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico, a OCDE, ajuda a dimensionar o impacto do problema. Relatórios
recentes mostram que quase um em cada três adultos nas economias avaliadas
possui fragilidades fundamentais em leitura ou matemática. Esses adultos tendem
a apresentar piores resultados de emprego, renda, saúde, confiança social e
participação cívica.
As desvantagens não aparecem isoladamente. Acumulam-se
ao longo da vida e, muitas vezes, alcançam a geração seguinte. Pais com baixa
proficiência leitora costumam ter mais dificuldades para acompanhar a educação
dos filhos, auxiliá-los nas atividades escolares e inseri-los em ambientes nos
quais os livros façam parte da vida cotidiana. A deficiência deixa, então, de
ser apenas individual e passa a reproduzir-se socialmente.
É significativo que nações como Finlândia e Japão
tenham tratado a formação intelectual como parte estrutural de seu
desenvolvimento. Evidentemente, nenhum país se torna desenvolvido apenas porque
sua população lê. O progresso depende de instituições, ciência, estabilidade,
infraestrutura e investimento. Mas uma economia moderna não se sustenta sem
pessoas capazes de aprender continuamente, interpretar informações, comparar
alternativas e resolver problemas.
Recursos naturais podem gerar riqueza. O conhecimento
é que a transforma em progresso duradouro.
Um estado que sabe produzir grãos, carne, energia e
divisas precisa também criar leitores. Do contrário, corre o risco de erguer
uma economia sofisticada sem preparar parcela expressiva da população para
ocupar os postos criados por ela.
Convém agora abandonar as estatísticas e fazer uma
pergunta desconfortável: e você, amigo leitor, quantos livros concluiu neste
ano de 2026?
Não vale incluir mensagens,
manchetes e postagens nas redes sociais. Todos nós as lemos. A pergunta se
refere à leitura que exige permanência: aquela que nos obriga a acompanhar um
argumento, enfrentar uma ideia contrária e sustentar a atenção enquanto o
telefone, esse pequeno tirano de bolso, oferece divertimentos imediatos.
Não se trata de
transformar livros em troféus de vaidade. Há quem leia cinquenta e compreenda
pouco; há quem leia cinco e saia profundamente modificado de cada um. A
pergunta serve apenas para expor uma contradição: costumamos defender a leitura
em público e abandoná-la em particular. Reclamamos que as crianças não leem
enquanto passamos a noite deslizando o dedo sobre uma tela. Exigimos
concentração dos estudantes, mas já não suportamos um texto que demore mais de
três minutos para chegar à conclusão.
Ao mesmo tempo, seria injusto simplesmente culpar quem
não lê. Muitos conheceram os livros apenas como instrumentos de punição
escolar: prova, questionário, resumo e nota baixa. Outros enfrentam jornadas
exaustivas, vivem em casas sem livros ou jamais tiveram acesso a uma biblioteca
acolhedora.
Não basta distribuir obras e repetir que ler é
importante. É necessário criar tempo, acesso, mediação e, sobretudo, exemplo. A
criança precisa ver adultos lendo. O estudante precisa enxergar no livro algo
além da resposta exigida pelo professor. O trabalhador necessita de educação
continuada. A pessoa idosa precisa ser convidada a permanecer intelectualmente
ativa.
A leitura deve acompanhar a vida inteira: na infância,
ajuda a descobrir o mundo; na maturidade, a não se deixar enganar por ele; na
velhice, a continuar conversando com ele.
Os livros não resolverão sozinhos nossas
desigualdades. Não construirão escolas, não substituirão professores nem
eliminarão a pobreza. Mas nenhuma sociedade enfrentará seriamente seus
problemas se os cidadãos não compreenderem as palavras com que eles são
apresentados — e, principalmente, aquelas com que tentam escondê-los.
Quem mal lê não apenas mal sabe: também ouve sem
distinguir, vê sem compreender e escolhe sem conhecer inteiramente aquilo que
está escolhendo.
Em Mato Grosso, formar leitores deixou de ser apenas
uma aspiração cultural. Tornou-se uma necessidade educacional, econômica e
democrática. É preciso abrir livros para que não continuemos fechando portas.
*Márcio
Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de
Mato Grosso.