Nos últimos anos, Mato Grosso deixou de ocupar
posições periféricas no debate nacional sobre educação básica e passou a
figurar entre os estados que evidenciam capacidade de reação institucional. O
avanço mais visível se manifesta no ensino médio da rede estadual: o Ideb
passou de 3,6 em 2021 para 4,2 em 2023, superando a média nacional das redes
estaduais (4,1). Trata-se de um movimento relevante — e que merece ser
reconhecido sem reservas.
Ainda assim, progressos recentes, sobretudo em
sistemas educacionais complexos, exigem leitura prudente. Melhorar é um passo;
sustentar a melhora, via de regra, é um percurso mais exigente. A fotografia
atual sugere uma rede que ganhou tração, mas que ainda convive com fragilidades
estruturais relevantes.
Os sinais positivos
No plano da gestão, há indícios consistentes de
fortalecimento da coordenação pedagógica. A difusão de avaliações diagnósticas,
simulados e instrumentos de monitoramento revela uma rede mais orientada por
evidências — traço característico dos sistemas educacionais que avançam de
forma mais consistente.
Também merece destaque o esforço de
recomposição da aprendizagem após a pandemia. A elevação do Ideb indica melhora
simultânea no fluxo escolar e no desempenho em avaliações padronizadas, o que
dificilmente ocorreria sem algum grau de alinhamento pedagógico entre as
unidades.
Outro elemento a ser considerado é a redução recente
do abandono escolar, apontada por dados administrativos da própria rede. Embora
tais informações exijam cautela na interpretação, elas dialogam com a melhora
do componente de fluxo que integra o Ideb.
No campo das condições materiais, Mato Grosso
apresenta bons indicadores de infraestrutura básica: praticamente todas as
escolas contam com água, energia elétrica e acesso à internet. Trata-se de uma
base importante — ainda que insuficiente, por si só — para sustentar avanços
mais robustos na aprendizagem.
As fragilidades estruturais
Os avanços, contudo, coexistem com problemas de grande
envergadura.
O primeiro deles diz respeito ao vínculo docente.
Segundo o Censo Escolar de 2024, 74,9% dos professores da rede estadual são
temporários, o terceiro maior percentual do país. Ainda que os dados nacionais
não indiquem uma relação linear entre temporariedade e desempenho, a literatura
especializada é consistente ao apontar que níveis muito elevados de contratação
precária tendem a produzir rotatividade, descontinuidade pedagógica e fragilidade
institucional.
Outro ponto sensível é a baixa expansão do ensino
médio em tempo integral. Em Mato Grosso, apenas 9,7% dos estudantes da rede
pública estadual estão nessa modalidade, percentual significativamente inferior
à média nacional (24,2%) e bastante distante de estados como Pernambuco (69,6%)
e Ceará (54,6%). Quando bem estruturado, o tempo integral não se reduz à
ampliação da carga horária: implica reorganização do tempo escolar, com
impactos relevantes sobre permanência e aprendizagem.
Soma-se a isso o problema do atraso escolar acumulado.
A taxa de distorção idade-série no ensino médio da rede pública alcança cerca
de 17,7%, enquanto apenas 69% dos jovens concluem essa etapa até os 19 anos. Em
termos práticos, trata-se de um sistema que ainda perde alunos ao longo do
percurso e que encontra dificuldades para assegurar trajetórias regulares.
Há, por fim, limitações na chamada infraestrutura
pedagógica fina. Aproximadamente 54,9% das escolas dispõem de biblioteca ou
sala de leitura, 30,6% contam com laboratório de informática e cerca de 9%
possuem laboratório de ciências. Em um ensino médio que exige maior densidade
cognitiva, tais carências assumem relevância.
Uma leitura necessária: a natureza sistêmica do
problema
A comparação entre os estados brasileiros sugere uma
constatação importante: não há variável isolada capaz de explicar o desempenho
educacional. Redes com elevado percentual de professores temporários apresentam
bons resultados, ao passo que outras, com vínculos mais estáveis, permanecem em
patamares modestos.
O que distingue os sistemas mais
eficazes não é um único fator, mas a combinação de elementos: gestão orientada
por dados, continuidade de políticas públicas, centralidade da aprendizagem,
expansão qualificada do tempo integral e capacidade de intervenção precoce
sobre o risco de evasão.
Sob essa perspectiva, Mato Grosso já reúne alguns
desses componentes, ainda que de maneira parcial e, por vezes, desigual.
Caminhos possíveis para avançar
O desafio que se coloca não é de ruptura, mas de
consolidação.
No campo do vínculo docente, impõe-se a transição para
um modelo que reduza, de forma gradual, a dependência de contratos temporários.
Concursos públicos planejados em ciclos, alinhados à capacidade fiscal e às
necessidades efetivas da rede, constituem caminho viável. A Lei de
Responsabilidade Fiscal, nesse contexto, não atua como impedimento absoluto,
mas como parâmetro de organização.
No que se refere à permanência
escolar, a evasão deve ser tratada como um processo previsível. Políticas de
monitoramento contínuo da frequência, busca ativa, articulação com a rede de
proteção social e uso efetivo de incentivos à permanência tendem a produzir
resultados consistentes.
No eixo pedagógico, a consolidação de estratégias de
recomposição da aprendizagem — com ênfase em Língua Portuguesa e Matemática —
mostra-se essencial, sobretudo quando associada a programas de tutoria
direcionados aos estudantes com maior defasagem.
A expansão do tempo integral, por sua vez, deve ser
conduzida com intencionalidade. Mais tempo na escola precisa significar mais
aprendizagem, maior vínculo e ampliação das oportunidades formativas.
Por fim, investimentos graduais na infraestrutura pedagógica
— especialmente em leitura e ciências — são decisivos para elevar o nível de
exigência cognitiva do ensino médio.
Mato Grosso atravessa um momento relevante. Já não se
trata de um sistema inerte, mas tampouco se pode afirmar que tenha alcançado um
padrão consolidado de excelência. O avanço recente revela capacidade de
resposta; o que está em jogo, agora, é a capacidade de permanência.
Em educação, há ganhos que se anunciam com rapidez — e
outros que só se confirmam com o tempo. Entre um e outro, está a diferença
entre progresso circunstancial e construção institucional. O desafio que se
apresenta, neste momento, é fazer com que a melhora deixe de depender do
esforço do momento e passe a decorrer do próprio funcionamento do sistema —
menos sujeita às oscilações do contexto, mais ancorada na consistência de suas
próprias estruturas.
Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público
do Estado de Mato Grosso.