A situação enfrentada por moradores da região de
divisa entre Mato Grosso e Pará ganhou destaque durante audiência de
conciliação realizada nesta quarta-feira (10), no Supremo Tribunal Federal
(STF). Representando Paranaíta, o prefeito Osmar Antônio Moreira fez um apelo
emocionado em defesa das comunidades que dependem dos serviços públicos
oferecidos pelos municípios mato-grossenses e relatou dificuldades enfrentadas
pela população após a redefinição dos limites territoriais entre os dois
estados.
A audiência foi conduzida pelo ministro Flávio Dino,
relator da Ação Rescisória (AR) 2964, que discute a controvérsia sobre a
delimitação territorial entre Mato Grosso e Pará. O encontro reuniu
representantes dos governos estaduais, parlamentares, prefeitos e integrantes
da Procuradoria-Geral da República (PGR), com o objetivo de buscar alternativas
para garantir a prestação de serviços públicos à população afetada pela
disputa.
Durante sua manifestação, Osmar destacou que moradores
de comunidades localizadas em território oficialmente paraense continuam
dependentes da estrutura pública de Paranaíta e de outros municípios
mato-grossenses para acessar serviços essenciais, como saúde, educação,
transporte, assistência social e manutenção de estradas.
O prefeito relatou um episódio que, segundo ele,
evidencia o abandono enfrentado por essas comunidades. Conforme seu depoimento,
uma mulher morreu após sofrer um acidente em uma área pertencente ao Pará sem
que houvesse apoio do estado vizinho para o atendimento da ocorrência.
“Isso foi uma decepção para mim como gestor. Eu
pensei: a vida humana para o Estado do Pará não tem valor. É apenas mais uma
pessoa que morreu”, afirmou durante a audiência.
Segundo Osmar, a realidade das comunidades localizadas
entre Paranaíta e Jacareacanga é marcada pelo isolamento geográfico. Muitas
delas estão situadas a mais de 400 quilômetros da sede do município paraense e
não contam com acesso rodoviário adequado, o que faz com que seus moradores
busquem atendimento em cidades de Mato Grosso, especialmente Paranaíta e Alta
Floresta.
O gestor informou que a Prefeitura de Paranaíta
destina mensalmente entre R$ 300 mil e R$ 350 mil para garantir o atendimento
dessas populações, mesmo elas residindo oficialmente em território paraense. De
acordo com ele, o município já protocolou junto ao STF pedido de ressarcimento
de aproximadamente R$ 29 milhões referentes aos investimentos realizados ao
longo dos anos na região.
“Nós oferecemos segurança, saúde, educação, manutenção
de estradas, apoio à agricultura e todos os demais serviços públicos. Até
quando ocorre um falecimento, somos nós que buscamos as pessoas de barco ou de
avião”, declarou.
Representantes de Mato Grosso defenderam durante a
audiência a criação de mecanismos de cooperação institucional para formalizar a
prestação dos serviços públicos e assegurar segurança jurídica aos gestores
municipais. Também foi proposta a participação da União na construção de
soluções para atender as comunidades afetadas.
Ao encerrar a audiência, o ministro Flávio Dino
ressaltou que o objetivo do STF é buscar soluções concretas para os problemas
enfrentados pela população da região e informou que novos diálogos técnicos
serão realizados entre as partes para aprofundar as propostas apresentadas.
A controvérsia envolve uma área de aproximadamente 22
mil quilômetros quadrados, abrangendo territórios dos municípios paraenses de
Jacareacanga, Novo Progresso, Altamira, São Félix do Xingu, Cumaru do Norte e
Santana do Araguaia. Embora a questão territorial ainda esteja sob análise do
Supremo, os debates passaram a concentrar esforços na garantia da continuidade
dos serviços públicos prestados às comunidades que vivem na região de fronteira
entre os dois estados.