A Embrapa apresentou, em novembro de 2025, um conjunto
de três protocolos científicos desenvolvidos para transformar a
sustentabilidade na cadeia leiteira brasileira. Os documentos estabelecem
diretrizes práticas para reduzir a emissão de gases de efeito estufa (GEE) —
como metano, amônia e óxido nitroso — e potencializar o sequestro de carbono no
solo.
O lançamento ocorre em um momento estratégico: dados
do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) apontam que a agropecuária
é responsável por 30,5% das emissões de GEE no Brasil, com o rebanho leiteiro
respondendo por uma parcela significativa do metano gerado via fermentação
entérica.
Os novos protocolos dividem-se em áreas críticas da
produção agropecuária, atacando desde o metabolismo animal até a gestão química
do solo:
1.
Mitigação de
Metano Animal: Focado na eficiência zootécnica. O estudo mostra que vacas mais
produtivas e saudáveis distribuem melhor a carga de metano por litro de leite.
Simulações indicam que índices reprodutivos e sanitários inadequados podem
elevar as emissões em até 22%.
2.
Redução de Amônia
e Óxido Nitroso: Orienta sobre o uso eficiente de fertilizantes nitrogenados e
dejetos. O uso de leguminosas consorciadas com gramíneas é destacado como uma
solução para fixar nitrogênio naturalmente, reduzindo a dependência de fertilizantes
químicos.
3.
Manejo de Solos
para Sequestro de Carbono: Promove técnicas como plantio direto, recuperação de
pastagens e sistemas integrados (como a integração lavoura-pecuária-floresta).
Em sistemas com árvores, o crescimento de apenas 52 eucaliptos pode compensar a
emissão anual de uma vaca de alta produtividade.
Para a pesquisadora Patrícia Perondi Anchão Oliveira,
da Embrapa Pecuária Sudeste, a adoção dessas práticas é uma resposta direta às
exigências crescentes do mercado consumidor e à necessidade de garantir a
segurança alimentar futura. "A pecuária mais resiliente e responsável é o
único caminho para atender à meta 13 dos Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável (ODS)", afirma.
O principal obstáculo, contudo,
reside no investimento inicial. Alexandre Berndt, chefe-geral da Embrapa
Pecuária Sudeste, ressalta que muitos produtores estão descapitalizados para
investir em novas tecnologias.
"Após a adoção, passa-se a produzir mais e de
forma mais eficiente. A rentabilidade da atividade subsequente permite novos
investimentos", explica Berndt, enfatizando que políticas públicas como o Plano
ABC+ e o apoio de cooperativas são fundamentais para essa transição.
As diretrizes detalhadas constam no livro "Protocolos
de boas práticas para a mitigação de gases do efeito estufa em sistemas de
produção de bovinos", publicado pela Embrapa Pecuária Sudeste. A obra
funciona como um guia técnico para produtores que buscam a descarbonização e o
aumento da competitividade no campo.