Carlinda (MT) – Um vídeo divulgado nas redes sociais
por cinco vereadores de Carlinda gerou forte repercussão política no município
ao questionar a decisão da presidente da Câmara Municipal, vereadora Lúcia de
Sousa Kanno, de acionar a Justiça para cobrar valores que, segundo ela, não
teriam sido integralmente repassados pela Prefeitura ao Legislativo. O caso
envolve divergências sobre o duodécimo constitucional, acusações políticas,
disputas internas na Câmara e uma decisão judicial favorável ao Legislativo.
No vídeo, os vereadores Kennedy Henrique Lomeu
(vice-presidente da Câmara), Sandra Cristina Costa, Claudinho do Bom Jesus,
Solange Alves dos Santos e Nelo fazem críticas à iniciativa judicial e aos
impactos financeiros para o município.
O vereador Kennedy Henrique Lomeu afirma que a decisão
da presidente da Câmara pode retirar mais de R$ 1 milhão dos cofres da
Prefeitura. “Dinheiro esse que poderia virar asfalto, reforma de escolas ou
benefícios diretos para a população”, diz. Em outra fala, ele sustenta que o
grupo tem o dever de alertar a população e reforça que o compromisso dos
vereadores deve ser com Carlinda e com os cidadãos, “não com interesses
individuais”. Kennedy também afirma que a presidente teria processado a
Prefeitura e estaria cobrando uma diferença superior a R$ 1,2 milhão.
A vereadora Sandra Cristina Costa detalha os valores
repassados pelo Executivo à Câmara Municipal nos últimos anos. Segundo ela, em
2023 o repasse foi de R$ 1.608.000; em 2024, R$ 1.800.000; em 2025, R$
2.700.000 — quase R$ 1 milhão a mais em relação a 2024 — e, para 2026, R$
3.000.000. Diante desses números, Sandra questiona se a presidente da Câmara
teria noção do prejuízo que a medida poderia causar ao município.
O vereador Claudinho do Bom Jesus afirma que, mesmo
com o aumento significativo do repasse, a presidente da Câmara considera o
valor insuficiente para cobrir as despesas. Já a vereadora Solange Alves dos
Santos, primeira secretária da Mesa Diretora, questiona a finalidade de um
eventual aumento de recursos. “Para que a Câmara quer mais dinheiro? Para
aumentar o salário dos vereadores?”, indaga.
O vereador Nelo também se posiciona no vídeo,
afirmando que a Câmara Municipal não executa obras e que os recursos deveriam
ser direcionados para ações da Prefeitura em benefício direto da população.
“Quem faz obras é a prefeitura municipal”, declarou.
Diante da repercussão, o Gazeta do Nortão entrevistou
a presidente da Câmara Municipal de Carlinda, vereadora Lúcia de Sousa Kanno,
que apresentou sua versão dos fatos e comentou tanto as críticas dos
parlamentares quanto a ação judicial.
Segundo Lúcia Kanno, ao assumir a presidência da
Câmara no ano anterior, todas as decisões foram discutidas com os nove
vereadores. Ela afirma que os salários dos servidores da Casa estavam defasados
e que foi realizada uma adequação salarial, abrangendo cargos como contador,
controle interno, secretária e recepcionista. A presidente também explicou que,
conforme lei aprovada pela legislatura passada, o salário dos vereadores passou
de R$ 3.500 para R$ 6.500. Já a verba indenizatória, segundo ela, foi definida
pela atual legislatura, com teto de até 60% do salário do vereador, variando
entre cerca de R$ 3.500 e R$ 3.900.
Lúcia Kanno destacou que o repasse constitucional à
Câmara é de até 7% da arrecadação de determinados impostos municipais, conforme
previsto na Constituição Federal. Ela relata que, em outubro, foi alertada pelo
setor de Recursos Humanos de que os recursos seriam insuficientes para fechar o
ano sem déficit. Diante disso, a Mesa Diretora teria decidido reduzir a verba
indenizatória e suspender o vale-alimentação criado para os servidores, por
entender que tais benefícios não são obrigatórios.
A presidente também afirma que passou a sofrer pressão
política após essas decisões administrativas. Segundo seu relato, a vereadora
Sandra Cristina Costa e o vereador Kennedy Henrique Lomeu teriam articulado sua
saída da presidência da Câmara. Lúcia Kanno diz que houve tentativas de
desestabilização política, inclusive com relatos de ameaças, o que, segundo
ela, foi comunicado a autoridades locais. Ela sustenta que não cometeu
irregularidades e que permanecerá no cargo até o fim do mandato, em 31 de dezembro
de 2026.
Ainda de acordo com Lúcia Kanno, houve uma reunião
envolvendo vereadores na qual teria sido relatada uma proposta para que, caso
ela fosse retirada da presidência, o prefeito garantiria o repasse integral sem
redução da verba indenizatória. Segundo a presidente, os vereadores José
Cláudio de Souza Franco (Claudinho do Bom Jesus), Manoel Rodrigues de Sousa
(Nelo), Lauro Mota, Antônio Carlos Malice e Wilson Evangelista (Ticão) não
concordaram com a proposta e assinaram uma declaração relatando os fatos,
documento que, segundo ela, será tornado público.
Durante a entrevista, Lúcia Kanno também mencionou
recursos que afirma ter viabilizado para o município, citando R$ 765 mil
obtidos junto ao deputado Emanuel Pinheiro, R$ 200 mil com o senador Jaime
Campos — sendo R$ 50 mil destinados à saúde e R$ 150 mil para uma cooperativa —
além de R$ 694 mil para a aquisição de um ônibus especial.
Questionada sobre o impacto
financeiro alegado pelos vereadores e sobre a ação judicial, a presidente
confirmou que a Câmara ingressou na Justiça e que já houve decisão favorável.
Segundo ela, o juiz determinou que o repasse seja feito conforme o percentual
de 7% previsto na Constituição Federal. “Juiz cumpre a lei”, afirmou,
acrescentando que, com esse percentual, a Câmara conseguirá administrar suas
despesas. Ela também disse que eventuais sobras de recursos poderão ser
investidas em melhorias no prédio do Legislativo e que qualquer valor não
utilizado ao final do exercício será devolvido à Prefeitura.
A decisão judicial foi proferida no dia 19 de janeiro pelo
juiz Alexandre Sócrates Mendes, da 1ª Vara de Alta Floresta, no processo nº
1009727-88.2025.8.11.0007, movido pela Câmara Municipal de Carlinda contra o
Município de Carlinda. Na ação, a Câmara alegou que a Lei Orçamentária Anual de
2025 fixou o duodécimo em valor inferior ao limite de 7% estabelecido pelo
artigo 29-A da Constituição Federal. De acordo com os cálculos apresentados, o
repasse anual deveria ser de R$ 3.263.813,66, mas foi fixado em R$ 2.700.000,
resultando em uma diferença de R$ 563.813,66.
O magistrado reconheceu a probabilidade do direito da
Câmara e o risco de prejuízo ao funcionamento do Legislativo, deferindo
parcialmente a tutela de urgência. A decisão determina que o Município de
Carlinda realize, no prazo de 48 horas, o repasse mensal do duodécimo
observando o percentual constitucional de 7%, além de complementar, em até
cinco dias, os valores repassados a menor nos meses já vencidos de 2025. Em
caso de descumprimento, foi fixada multa diária de R$ 1.000, limitada a R$ 50
mil, a ser suportada pessoalmente pelo gestor responsável.
O juiz também corrigiu o valor da causa para R$
462.844,70, correspondente ao montante efetivamente discutido na ação, e
destacou que a redução unilateral dos repasses pelo Executivo pode caracterizar
violação à autonomia financeira do Poder Legislativo e ao princípio da
separação dos poderes.

